O que resta?
Resta vontade de algo mais.
Resta incerteza e esperança.
Não é possível ser completa.
O quentinho daquele primeiro abraço eu guardo no meu coração.
Abraço que colava e me fazia segura e plena.
Eu e ela. Eu e seu colo, sua voz, seu toque, seu cheiro.
Eu e aquele olhar que me livrou do desamparo perante a vida.
Olhar que me livrou da morte e me deu espaço pra respirar.
Me deu ar pra respirar.
E me alimentou.
Cuidou.
Me encheu de amor e palavra.
Me deu nome antes mesmo de eu nascer.
Palavra que me encheu de vida e esperança.
Eu e ela éramos uma coisa só.
Mas o tempo fez exigências e ela precisou ir.
E comecei a me perceber um ser só — sensação de desamparo, ser separado!
E comecei a olhar pra outras coisas e descobri novas cores.
Meu dedão era gostoso de chupar, e aquele outro colo também conseguia me acalmar.
Eu via ela indo e sorrindo até voltar e me amar.
Eu, meu corpo, o tempo, o colo dela e outras vozes.
Deixamos de ser só eu e ela, e comecei a olhar para o que ela olhava.
Vi seu olhar brilhando e eu quis um pouco disso.
E, quando ela vinha, eu podia sentir seu sorriso mais vasto e suas mãos acariciando meu cabelo, enquanto me impulsionavam a seguir.
E eu me pus a caminhar!
E, a cada passo que eu dava, menos inteira eu ficava, menos completa — e mais humana eu me tornava.
E eu me sentia, em alguns momentos, parecida com ela.
E era gostoso ir e poder retornar para aquele abraço.
Mas também era bom ser enlaçada por outros corpos e novas sensações.
Eu, meu corpo, o tempo, nossos momentos, nossos desencontros foram me levando a respirar um ar que fosse só meu.
E o que restou desse primeiro encontro que me salvou?
O que me resta agora, que sua presença física também se faz em branco?
Antes de seu fim concreto, já éramos dois corpos, dois seres separados, e eu já havia me tornado amparo na vida de um outro serzinho.
Mas ela estava lá.
Agora nem seu colo está ao meu alcance.
E o que resta dessa perda real que impregna minha alma?
Ela não está mais viva.
E o que resta?
Resta muita curiosidade sobre a vida.
Resta o desejo de continuar buscando meu caminho, com todas as falhas, buracos, medos e anseios que me habitam —
assim como com as vitórias, coragens e esperanças a me impulsionar.
Tantas coisas dentro de mim foram implantadas pelo amor e pela curiosidade dela.
Eu fui perdendo ela desde o momento que nasci.
E agora, seu olhar curioso só resta nas minhas lembranças.
Mas ela continua viva dentro de mim.
E eu vou continuar buscando, por aqui, o que resta diante deste ser incompleto que sou.
Ser não todo.
Ser dividido e cheio de ambivalências.
Ser de linguagem.
Por aqui, resta muita vida pra viver!!!